Autoritarismo de coturno ameaça a Arqueologia

Coturno Flecha

O Brasil se encontra diante de um daqueles momentos de inflexão que marcam profundamente a nossa história. Uma ocasião que delineia o nosso caráter e nos define como Nação.

Ironicamente, estamos prestes a conduzir democraticamente à Presidência do país um projeto de governo militarista e autoritário que ataca diretamente a democracia, destilando o ódio e a barbárie. Envoltos num clima de histeria coletiva fundamentado no medo e na necessidade de mudança, simplesmente ignoramos os fatos que explicitamente apontam que miramos para um passado idílico, desconsiderando a nossa trajetória de amadurecimento democrático e social. A intolerância e o ódio visceral propagados não atinge um inimigo distante e externo, mas sim nossos vizinhos, amigos, irmãos e familiares.

A comparação dos planos de governo assumiu uma importância secundária. Não se trata de uma disputa entre duas propostas políticas ou ideológico-partidárias. O que temos pela frente é a escolha entre a manutenção dos preceitos morais e humanitários fundamentais e inerentes ao convívio social, ou a institucionalização da barbárie e a renúncia de conceitos éticos basilares.

Em termos arqueológicos, estamos optando entre a manutenção do nosso contrato social (com todos os seus defeitos), ou a retomada dos princípios tribais que regiam os primórdios das sociedades de caçadores-coletores, época em que o senso de coletividade era limitado ao tamanho do núcleo tribal e os grupos maiores subjugavam barbaramente as minorias, sem hesitações humanitárias ou argumentos lógicos.

O “simples” elogio à tortura e ao período notoriamente nefasto da Ditadura Militar no Brasil, deveria ser motivo de repulsa suficiente para execrarmos qualquer político que pretenda legitimar esse discurso através de um cargo público notadamente de representatividade popular.

O retrocesso já é vislumbrado em várias áreas da sociedade. A Arqueologia não está imune. O principal ataque é ensejado no âmbito do seu atrelamento aos processos de licenciamento ambiental, atividade que absorve a maciça maioria dos profissionais atuantes no país e responsável por inestimáveis contribuições ao conhecimento arqueológico nos últimos anos. Tal ameaça não é novidade, todavia, o cenário que se desvela é pautado pela superação da retórica frente à efetivação das ações.

Na contramão dos esforços mundiais em defesa do meio ambiente e dos acordos climáticos, o Brasil caminha para a priorização dos interesses de uma elite ruralista e descompromissada com o bem estar social e ambiental. Já foram anunciadas as pretensões de ataque ao Ministério do Meio Ambiente, ao IBAMA, ao Instituto Chico Mendes, ao Acordo de Paris, ao licenciamento e à legislação ambiental.

A Arqueologia estará na linha de frente. Para o Ministério da Cultura vislumbra-se a transformação em Secretaria ou sua fusão com o Ministério da Educação. Qualquer das medidas acarretará na redução de dotações orçamentárias e recursos humanos, afetando diretamente a já comprometida atuação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), autarquia responsável pela tutela do patrimônio arqueológico nacional.

A pretensa redução de custos será suprimida frente aos prejuízos. Enquanto países desenvolvidos promovem o patrimônio cultural e ambiental para movimentar a economia, a visão reducionista dos gestores públicos e políticos brasileiros os toma como um empecilho ao progresso.

A consolidação e sistematização da Arqueologia como uma disciplina científica recebeu um grande impulso no século XIX devido ao seu emprego na legitimação de políticas imperialistas europeias. No século XX os nazistas buscaram na Arqueologia o distorcido embasamento científico para subjugar povos e justificar a expansão territorial da Alemanha em direção ao leste europeu.

Já no Brasil do século XXI, a limitada visão cultural da extrema direita os impede sequer de perceber a potencialidade política da Arqueologia. Ao invés disso, atacam e zombam dos esforços dos pesquisadores para identificar os vestígios remanescentes das vítimas do regime ditatorial, uma postura desrespeitosa típica de pessoas ignorantes, insensíveis e egocêntricas.

A despeito desse cenário desolador, os prejuízos à Arqueologia se apequenam diante da iminente possibilidade de caos social. Aos arqueólogos caberá oferecer resistência. Mais do que uma pedra no sapato, seremos uma ponta de flecha no coturno.

 

Fabricio J. Nazzari Vicroski

Arqueólogo do Núcleo de Pré-História e Arqueologia (NuPHA/UPF).

Doutorando em História.

* As ideias aqui expressas são unicamente de responsabilidade do autor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Homo erectus pode ter sido incapaz de planejar com antecedência

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Fonte: ANU

Segundo um relatório da Australian Broadcasting Corporation, pesquisadores liderados por Ceri Shipton, da Universidade Nacional Australiana, dizem que o Homo erectus que viveu onde hoje é a Arábia Saudita empregou “estratégias de menor esforço” ao criar ferramentas e reunir recursos, quando comparado ao Homo sapiens e neandertais. Acredita-se que estes últimos tenham feito esforço e andado milhas extras para obter materiais de qualidade. Shipton explicou que ferramentas encontradas no local de um acampamento Homo erectus perto da cidade de Saffaqah, que fica a cerca de 175 milhas a oeste da capital saudita, Riyadh, foram feitas de rochas de um afloramento próximo que pode até ter rolado até o acampamento. “Nós também descobrimos que na tecnologia que eles estavam usando para fazer as ferramentas de pedra eles eram muito conservadores”, disse Shipton. “Eles usaram as mesmas estratégias para fazer as ferramentas em face de mudanças de ambientes.” Como os rios locais secaram e o meio ambiente se tornou deserto, Shipton acha que o Homo erectus que viveu no acampamento pode ter sido incapaz de planejar o futuro, e foram talvez relutantes em viajar para buscar novas fontes de água. “Eles estariam planejando apenas algumas horas, talvez no máximo um dia à frente, enquanto o Homo sapiens e o neandertal [fizeram] coisas como a migração sazonal”, acrescentou. Shipton sugere que essa incapacidade de adaptação pode ter contribuído para a extinção do Homo erectus.

Fonte: Popular Archaelogy

Tradução: Isabella Czamanski (Mestranda em História pela Universidade de Passo Fundo)


Resíduos de plantas arqueológicas apontam para o sudoeste da Amazônia como centro de domesticação agrícola

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Cachoeira de Teotônio no rio Madeira

Os restos de plantas cultivadas em um sítio arqueológico no sudoeste da Amazônia apoiam a ideia de que esta era uma região importante no início da história do cultivo, de acordo com um estudo publicado em 25 de julho de 2018 na revista PLOS ONE de Jennifer Watling do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, Brasil e colaboradores.

A análise genética de espécies de plantas há muito aponta para as terras baixas do sudoeste da Amazônia como uma região chave no início da história da domesticação de plantas nas Américas, mas evidências arqueológicas sistemáticas para apoiar isso têm sido raras. A nova evidência vem de camadas recentemente expostas do sítio arqueológico de Teotônio, que tem sido descrito pelos pesquisadores como um “microcosmo da ocupação humana do Alto Madeira” porque preserva um registro quase contínuo de culturas humanas que remontam a aproximadamente 9.000 anos.

Neste estudo, Watling e seus colegas analisaram os restos de sementes, fitólitos e outros materiais vegetais nos solos mais antigos do local, bem como sobre artefatos usados no processamento de alimentos. Eles encontraram algumas das primeiras evidências de mandioca cultivada, uma cultura que os geneticistas dizem ter sido domesticada aqui há mais de 8.000 anos atrás, bem como abóboras, feijões e talvez calateia, e importantes culturas de árvores como palmeiras e castanha do Brasil. Eles também viram evidências de florestas perturbadas e um tipo de solo chamado “Terras Negras Antropogênicas”, que resulta da alteração humana dos ambientes locais.

Essas descobertas sugerem que as pessoas dessa região passaram dos primeiros estilos de vida caçadores-coletores para o cultivo antes de 6.000 anos atrás, muito antes do que se pensava anteriormente. Associado a domesticação de plantas, também surgiu o familiar hábito humano de modificação da paisagem, sugerindo que o impacto humano nas florestas amazônicas nessa região remonta a muitos milhares de anos. No conjunto, estes resultados apontam para o Alto Madeira como uma localidade chave para explorar os primeiros dias de domesticação de culturas no Novo Mundo.

Watling observa: “Esta descoberta na cachoeira de Teotônio, no sudeste da Amazônia, é uma das evidências mais antigas para o cultivo de plantas nas terras baixas da América do Sul, confirmando evidências genéticas”.

Os autores acreditam que a cachoeira de Teotônio é o que mais atraiu pessoas para esse local por mais de 9.000 anos, pois era um local de pesca extremamente rico e um ponto de parada obrigatório para quem viaja de barco neste trecho do rio Madeira. Era a localização de uma vila de pescadores (a vila de Teotônio) até 2011, quando os moradores foram forçados a se mudar para o interior antes da construção da barragem. A represa submergiu a aldeia e a cachoeira.

 

Fonte: Popular Archaelogy

Tradução: Isabella Czamanski (Mestranda em História pela Universidade de Passo Fundo)

 

 

 


O conteúdo do estômago de Otzi, o Homem de Gelo é analisado

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Foto: South Tyrol Museum of Archaeology

A análise do conteúdo estomacal de Otzi, o Homem de Gelo, indica que sua última refeição incluiu a gordura e a carne de íbex e veado, sementes de trigo integral e folhas e esporos de samambaia, de acordo com um relatório da Associated Press. Otzi é o nome dado ao homem que morreu há cerca de 5.300 anos nos Alpes italianos e cujos restos congelados e mumificados foram descobertos por andarilhos em 1991. Os cientistas haviam examinado previamente seus intestinos, mas esta é a primeira vez que eles reviram o conteúdo de seu estômago, que foi encontrado por trás de sua caixa torácica, depois de ter sido transferido para cima após sua morte, por um radiologista em 2009. Amostras do conteúdo estomacal foram eventualmente retiradas do corpo descongelado de Otzi e reidratadas para serem testadas. O microbiologista Frank Maixner, do Institute for Mummy Studies, diz que o conteúdo da refeição faz sentido, já que sua proporção de gordura teria fornecido a energia necessária para sobreviver em um ambiente tão hostil.

Fonte: Archaelogy

Tradução: Isabella Czamanski (Mestranda em História pela Universidade de Passo Fundo)


As crianças da antiguidade também adoravam escalar árvores

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Esquerda: O pé de 3,32 milhões de anos de uma criança de Australopithecus afarensis mostrada em diferentes ângulos. Direita: o pé da criança (abaixo) comparado com os restos fósseis de um pé adulto de Australopithecus (via Jeremy DeSilva & Cody Prang)

Restos do esqueleto de um minúsculo pé – mais ou menos do tamanho de um polegar humano – sugerem que os filhos de nossos primeiros ancestrais não eram tão diferentes das crianças modernas.

O fóssil pertence a Selam, uma hominídea de três anos de idade, cujo crânio e outros vestígios foram descobertos em Dikika, na Etiópia, em 2002 por Zeresenay Alemseged.

Enterrado em sedimentos antigos, o esqueleto de Selam foi lentamente extraído, o elemento mais recente detalhado em um estudo publicado pela revista Science Advances.

“Pela primeira vez, temos uma janela incrível sobre como era andar para uma criança de dois anos e meio de idade, há mais de três milhões de anos”, disse o principal autor Jeremy DeSilva, professor-associado de antropologia em Dartmouth College. “Este é o pé mais completo de um jovem antigo já descoberto.”

Alemseged, professor da University of Chicago e autor sênior do estudo, concorda: “O pé de Dikika aumenta a riqueza de conhecimento sobre a mosaica natureza da evolução do esqueleto de hominídeos.”

Incrivelmente bem preservado, o pé permite que os pesquisadores reconstruam uma imagem da vida – especificamente de bebês – de milênios atrás.

Eles examinaram para o que a extremidade teria sido usada, como ela se desenvolveu e o que ela nos diz sobre a evolução humana (spoiler: nossos progenitores eram “muito bons” em andar de pé).

Com apenas três anos quando ela morreu, Selam já era bípede. Mas as dicas fossilizadas – a base do dedão do pé – sugerem que as crianças passam mais tempo nas árvores que os adultos.

“Se você estivesse morando na África há 3 milhões de anos sem fogo, sem estruturas e sem meios de defesa, seria melhor você subir em uma árvore quando o sol se põe”, disse DeSilva.

O estudo completo, intitulado “Um pé quase completo de Dikika, Etiópia e suas implicações para a ontogenia e função de Australopithecus afarensis”, está disponível para leitura online.

“Essas descobertas são críticas para entender a adaptação dietética e ecológica dessas espécies e são consistentes com nossas pesquisas anteriores em outras partes do esqueleto, especialmente a omoplata”, acrescentou Alemseged.

 

Fonte: Geek.com

Tradução: Isabella Czamanski (Mestranda em História pela Universidade de Passo Fundo)


Como nossos ancestrais com traços autistas lideraram uma revolução na arte da Era do Gelo

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Desenho de um cavalo feito por Nadia, uma artista autista infantil talentosa (à esquerda) e por uma criança em desenvolvimento típico da mesma idade (à direita). Fonte: Penny Spikins, Universidade de York.

A capacidade de se concentrar nos detalhes, um traço comum entre as pessoas com autismo, permitiu que o realismo prosperasse na arte da Era do Gelo, de acordo com pesquisadores da Universidade de York.

Cerca de 30.000 anos atrás, a arte realista floresceu de repente na Europa. Representações extremamente precisas de ursos, bisões, cavalos e leões decoram as paredes dos sítios arqueológicos da Idade do Gelo, como a Caverna de Chauvet, no sul da França.

Por que os nossos ancestrais da era do gelo criaram uma arte excepcionalmente realista, em vez da arte muito simples ou estilizada dos humanos modernos anteriores, há muito tempo deixam perplexos os pesquisadores.

Muitos argumentaram que drogas psicotrópicas estavam por trás das ilustrações detalhadas. A ideia popular de que as drogas podem melhorar as pessoas na arte levou a uma série de estudos eticamente duvidosos nos anos 60, onde os participantes receberam materiais de arte e LSD.

Os autores do novo estudo descartam essa teoria, argumentando que indivíduos com “foco em detalhes”, uma característica ligada ao autismo, deram início a um movimento artístico que levou à proliferação de desenhos rupestres realistas em toda a Europa.

A principal autora do artigo, Dra. Penny Spikins, do Departamento de Arqueologia da Universidade de York, disse: “O foco detalhado é o que determina se você pode desenhar realisticamente; você precisa dele para ser um talentoso artista realista. Esse traço é encontrado muito comumente em pessoas com autismo e raramente ocorre em pessoas sem ele.”

“Analisamos as evidências de estudos que tentavam identificar uma ligação entre o talento artístico e o uso de drogas, e descobrimos que as drogas só podem servir para desinibir os indivíduos com uma habilidade preexistente. A ideia de que pessoas com um alto grau de foco de detalhes, muitos dos quais podem ter autismo, estabelecer uma tendência para o extremo realismo na arte da era glacial é uma explicação mais convincente”.

A pesquisa acrescenta a um corpo crescente de evidências de que as pessoas com traços autistas tiveram um papel importante na evolução humana.

A Dra. Spikins acrescentou: “Indivíduos com esse traço – tanto aqueles que seriam diagnosticados com autismo nos dias de hoje quanto aqueles que não o teriam – provavelmente desempenharam um papel importante na evolução e sobrevivência humanas quando colonizamos a Europa.”

“Além de contribuir para a cultura inicial, as pessoas com a atenção aos detalhes necessários para pintar a arte realista também tiveram o foco para criar ferramentas complexas de materiais como osso, pedra e madeira. Essas habilidades tornaram-se cada vez mais importantes para nos permitir adaptarnos para os ambientes hostis que encontramos na Europa.”

 

Fonte: Science Daily

Tradução: Isabella Czamanski (Mestranda em História pela Universidade de Passo Fundo)

 

 

 

 

 

 


Turquesa pode ter sido minerada na Mesoamérica

 

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Fonte: http://www.archaeology.org (Oliver Santana, Editorial Raices)

De acordo com um relatório do New York Times, análises geoquímicas de artefatos astecas e mixtecas de turquesa  conduzidos pelo geoquímico Alyson Thibodeau do Dickinson College sugerem que a turquesa usada neles havia sido extraída na Mesoamérica, e não importada do sudoeste americano, onde antigas minas de turquesa foram encontradas. Pensava-se anteriormente que a turquesa viajou para o sul da Mesoamérica ao longo de uma rede de comércio de longa distância antes da chegada dos espanhóis no século XVI. “Elas não apenas têm assinaturas isotópicas que são absolutamente consistentes com a geologia da Mesoamérica”, disse Thibodeau, “mas são completamente diferentes das assinaturas isotópicas dos depósitos e artefatos de turquesa do sudoeste que vimos até agora.” O colega de Thibodeau, David Killick, da Universidade do Arizona, argumenta que os resultados do teste sugerem que pode ter havido nenhum contato organizado entre os mesoamericanos e as pessoas que vivem no sudoeste americano.

Fonte: Archaeology

Tradução: Isabella Czamanski (Mestranda em História pela Universidade de Passo Fundo)